10 de mar de 2011

Conto - My Immortal

Oi!
O texto de hoje é um conto, um pouco estranho e diferente do que costumo escrever; eu não gosto muito dele, e até hoje só mostrei para duas pessoas. Leiam, e me digam sinceramente o que acharam dele. (:

My Immortal

Elizabeth demorou algum tempo para perceber, mas se tornara uma suicida em potencial. Talvez essa não seja a melhor palavra para descrever sua situação. Pois não era como se ela fosse se matar, pois achava que não teria sangue frio o suficiente para ir até o fim, mas aos poucos, foi matando a sua vontade de 
viver. De fato, passou muito tempo incógnito tal fato para ela.

Talvez esse aspecto sobre sua vida só tenha se tornado realmente mais claro durante uma aula, com suas crianças de 10 anos.

Elizabeth era professora já fazia uns 7 anos. E nem mesmo a profissão lhe dava razão para ver sentido na vida. Num dia monótono, seguindo o cronograma das aulas, perguntou com voz sem emoção para seus alunos:

“Então crianças, na atividade de hoje, você vão ter que fazer um desenho explicando o que vocês querem ser quando crescer, junto a um texto. E se alguém colocar “quero ser grande”, vai levar um zero.” – disse enquanto distribuía as folhas às crianças.

Em seu típico alvoroço e afobação infantil, as crianças conversavam em voz outra e se puseram a fazer a tarefa pedida. Elizabeth somente sentou-se na sua mesa. De relance olhou para o espelho jogado de forma aleatória em sua bolsa, fitando seu rosto: costumava achar-se bela, e assim os outros também. Mas agora, os longos cabelos pretos lisos, os enigmáticos olhos cor de tempestade, a feição suave delineada pelos lábios carnudos e o nariz pequeno, no corpo esguio e magro, que só abriam exceção em certas curvas, não significava nada para ela. Não achava a jovem do espelho bonita ou interessante. Só vazia.

Voltou-se a alguns papéis dispostos em sua mesa, torcendo pra aula acabar logo, mas não sabendo o que fazer quando ela terminasse. Enfim, o sinal tocou e as crianças entregaram-lhe o trabalho, e saíram afobadas para ir para casa.

Decidiu analisar brevemente os trabalhos, vendo qual era a ambição daquelas crianças.

“Quero ser professora”, leu em o de uma menina. “Quero ser advogado”, “Quero ser médica”, “Quero ser Engenheiro”, entre várias outras opções.

“Tão ingênuas” – Elizabeth pensou. “Acham que a vida é assim. Vão escolher uma profissão, se formarem, casarem-se, serem felizes. No final nada dá certo. E a unica coisa certa é que nada do que você quer dá certo.” – pensou com amargura.

Sua consciência então se deu conta de tantos pensamentos amargos. Era sua vida contada em poucas palavras. Diante daqueles trabalhos infantis, Elizabeth percebeu que perdera terrivelmente o gosto pela vida. Vinte e nove anos, mas a carga parecia que pesava como se ela tivesse sessenta.

Deu um sorriso amargo para si mesma... “Não é nenhuma grande surpresa.”

Saiu, observando tantas crianças saindo com os pais, e a tarde chegando ao fim. Então, resolveu caminhar um pouco, coisa que não fazia há tempos.

Mas sua mente estava tão fora de foco que andou, andou, e quando deu por si já era noite. Olhou para o alto, vendo milhares de pontinhos de luzes, e a grande lua, observando-a do alto.

Ótimo, pensou ela, ótimo, andando na rua de noite, uma mulher sozinha, correndo o sério risco de ser assaltada ou morta. Com outro traço de amargura, viu que não se importava em nada com isso.

Parou em uma ponte modesta, e encostou-se na amurada, com um grande suspiro.

Quando foi que me transformei nesse ser vazio?
Por que as coisas são tão difíceis?
Por que nada mais faz sentido?

“Pensando na vida?” – uma voz atrás de si assustou-a e a despertou para a vida.

Uma jovem, provavelmente com uns 14 anos, olhava-a com interesse. Cabelos castanho-claros, quase loiros, levemente ondulados e na altura dos ombros, e com olhos âmbar, ela tinha as feições doces e quase infantis, e o corpo indefinido e quase andrógino de uma adolescente.

Sobressaltada com o susto, mas com uma ponta de irritação, perguntou numa voz impaciente:

“E o que isso lhe interessa?”

“Nada – a jovem, com uma voz suave, respondeu – mas acho difícil uma pessoa estar fazendo outra coisa numa ponte, parada por mais de dez minutos olhando para o nada.”

“Há mais de dez minutos? Esteve me espionando?” – pretendeu dizer com raiva, mas saiu mais próximo a um sarcasmo.

“Não minha cara, não seja tão pretensiosa.” – zombou numa risada suave – “Mas essa é a minha ponte, e esperei um tempo para ver se você estava de passagem, mas percebi que não é o caso.”

“Sua ponte? Por acaso, a comprou? Ou é seu lugar secreto também para meditações?” – disse sem emoção na voz.

“Não senhorita... errou de novo. Mas é meu ponto de observação.”

“De quem?” – perguntou com ligeira curiosidade.

“Delas” – disse, apontando para o céu.

 Elizabeth olhou. Mas tudo o que viu foram as reluzentes estrelas.

“Delas quem?”

“Delas, oras – a jovem disse um tanto impaciente – das estrelas.”

“Estrelas... por acaso, você quer ser astróloga quando crescer? Astrônoma?” – disse com sarcasmo, lembrando-se de seus alunos.

“Não, minhas inquietações são maiores. Só quero ser imortal.”

Nesse instante, teve certeza que a jovem zombava abertamente dela, e virou-se bruscamente para encará-la. 

Mas viu o rosto dela, e percebeu que ela falara sério.

“Você é idiota ou o que? Não é nenhuma criancinha. Sabe que isso é impossível.”

“Pergunto-me o que acontece com as pessoas em determinado ponto da vida” – disse a jovem, ignorando a pergunta e encarando-a como quem comenta o tempo. –“Parece que simplesmente se esquecem de como é a sensação de viver.”

Elizabeth pareceu levar um soco no estômago. Sua amargura estaria tão óbvia, mesmo a uma completa 
desconhecida? Mas recompondo-se rapidamente, disse:

“Olhe a sua idade, menina. O que pode falar sobre a vida ou como viver? Quantas decepções você sofreu? Tem alguma idéia do que é aguentar o fardo de viver, às vezes? E ainda quer ser imortal, uma vida é o bastante para sofrer.”

“Posso saber mais do que você – disse a jovem com um sorriso presunçoso – que enxerga amargura em tudo. Sabe, há mais de uma maneira de ser imortal.”

“Então me cite outro exemplo de imortalidade.”

“Olhe a lua. Olhe as estrelas. Elas são imortais, de seu modo.”

“Não, as estrelas não são imortais. Duram milhares, milhões de anos. Mas um dia também vão morrer. Como tudo que existe. E só vai sobrar o nada.”

“A sua mente é tão limitada. Olha ali – pegou a mão de Elizabeth e apontou-a em uma direção. Canis Major. – sorriu com óbvio prazer ao observar a constelação - E ali – pegou sua mão de novo – Sirius. A estrela mais brilhante do céu.”

 “Sabe – Elizabeth disse, depois de puxar a mão de novo – Nunca entendi a fascinação das pessoas pelas estrelas. São pontos brilhantes, a milhões de quilômetros de distância, que já existiam antes de você nascer e continuarão a existir quando você morrer. E em nada interferem em sua vida.”

“Está melhorando, sabe. Primeira e segunda alternativa, corretas. A terceira, eu já não tenho tanta certeza assim.”

“Acredita no poder das estrelas, então?” – disse ceticamente.

“De certa forma... – deu de ombros – Olhe a Lua agora. Cheia. Em toda a sua beleza e calor. Ou frieza. Ela pode ‘morrer’ um dia – fez sinal de aspas com as mãos -, mas vai continuar sendo imortal. Assim como a Canis Major, assim como Sirius, Adhara e Wezen, e o resto das estrelas”  

Elizabeth olhou-a como se tivesse certeza que a jovem à sua frente era completamente louca.

“Mas o que...”

“Sabe – ela cortou-a com delicadeza – verdadeiramente imortais. Não só elas conseguiram esse feito. Algumas pessoas também já conseguiram ser assim.”

“Você é completamente louca” – Elizabeth crispou de raiva, e fez menção de sair dali.

“Qual é a etimologia da palavra imortalizar?” – a jovem perguntou num tom tão sereno que pegou Elizabeth de surpresa.

Mas, lembrando-se de sua época escolar, saudou-a com a definição:

“Tornar-se imortal. Eternizar na memória dos homens. Imorredouro.”

“Exato” – a jovem deu um sorriso doce e sereno. “Eternizar-se na memória dos homens. Mas não como um feito histórico ou arrogante. Sabe... como é mesmo o seu nome?”

“Elizabeth.” – respondeu seca.

“Sabe, Elizabeth – continuou calmamente – Quero ser imortal. Imortal como a Lua, ou como Sirius e Adhara. Sabe como elas são imortais, Elizabeth?”

Continuou sem esperar uma resposta:

“Pois eu lhe direi, Elizabeth. Sabe... – a jovem passou as mãos pelo cabelo – elas são imortais pelo que são. Pela sua importância. Pelo seu valor. Por fazer algo, ou por representar algo... ou somente por ser algo. Eu quero que as pessoas me amem, e depois que eu morrer, eu quero que elas sem lembrem de mim, se lembrem do que eu fiz e do que eu fui. Aí minha cara, eu saberei que me tornei imortal.”

Elizabeth parou por alguns segundos para considerar as palavras dela. De fato, fizeram sentido para ela. 

Mas não muito, ao que ela argumentou:

“Então você quer ser imortal... pra isso precisa ser amado e amar, não? E quando nós não amamos nem somos amados?”

“Aí, você não vive, Elizabeth.”

“Bom, eu vivo.”

“Não, você sobrevive. Estou mentindo?”

Elizabeth bufou e respondeu:

“Não, não está. O que devo fazer então, me jogar dessa ponte e por um fim na minha existência vazia?”

“Não, Elizabeth – a jovem disse num tom trivial – Você deve viver. Ou dar uma chance a si mesma e ao outros. Você nunca quis ser imortal. E nunca quis amar alguém. Vejo isso nos seus olhos. Sabe... dê uma chance a si mesma.”

“Tão fácil falar...” – Elizabeth disse num tom sumido. – “Não é nada fácil agir assim.”

“Permita-se tentar alcançar a imortalidade, Elizabeth. Lembre-se disso. Se necessário, olhe para o céu... procure as estrelas, a Lua... ou olhe ao seu redor, e tire suas próprias conclusões, professorinha.”

Elizabeth, a essas palavras, olhou para o céu e viu Canis Major. Ao ver Sirius, deu um belo sorriso. Coisa que não fazia há tempos.

“Talvez você tenha razão... talvez... mas não me lembro de te dizer que era professora.”

Quando não recebeu resposta, Elizabeth olhou para os lados. A jovem já tinha desaparecido.

Ao constatar isso, franziu as sobrancelhas, e olhou novamente para os lados. Então, olhou para cima uma última vez, e resolveu voltar para casa, tendo na cabeça o pensamento de que a jovem, real ou não, faria que, de algum modo, ela desejasse ser imortal.

FIM     

Nota: Canis Major é uma constelação do hemisfério celestial sul. Formada por  Sirius, a estrela mais brilhante no céu noturno e também uma das mais próximas da Terra, Adhara e Mirzam.

P.S: se você gostou do conto e quiser postá-lo em algum lugar, fico lisonjeada. MAS antes disso, fale comigo e quando eu liberar, poste os créditos, ou teremos problemas.

5 comentários:

  1. Primeiro: usar uma professora foi perfeito. Metade dos professores que conheci já tiveram uma aparência tão deprimida que realmente pareciam não querer mais viver, então achei que combinou bem. E também, aguentar os alunos é tenso. .-.
    Adoro contos que colocam os pensamentos assim, num diálogo; eu mesma faço isso o tempo todo.
    Amei. Tudo o que a garota falou foi perfeito, e o sentimento de Elizabeth, de não querer mais viver, é... paralisante. Paralisante por ser verdadeiro, por existir muitas chances de que venhamos a sentir isso um dia. Ou porque já sentimos.
    E foi um conto didático também, falando sobre Canis Major (Tom -q -n).
    Parabéns, gostei muito.

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  2. Ai,que lindo Bruna.
    É bem tocante.. fora que, eu adoro as estrelas.
    As estrelas são imutáveis, e mesmo assim um dia morrem... As estrelas...

    Lindo mesmo.

    Beijo ;*

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  3. =
    Po Bru... depois se diz que é conversa minha quando digo que cada coisa que escreve ta melhor que a anterior.

    O incrível nesse texto é que conseguiu mostrar bem a mente da professora e o da entidade de uma forma que elas tenham características profundas, que quase me levam a imaginas a infância dela.
    Gostei demais !!

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  4. Adorei *--* foi o seu conto que eu mais gostei, principalmente o final. Parabéns, acho que você tem que mostrar mais esses contos que você anda escondendo aí ;}}

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  5. Poxa, eu gostei bastante do assunto tratado... mas acho que talvez por ser mt longo fica monótono e previsível. Os diálogos ficaram bons, só que lendo as coisas que a menina falava, não tinha como imaginar ela como uma garota de 14 anos... podia ter colocado um pouco mais de idade aí e ter descrevido ela um pouco menos, pra não ficar essa confusão.
    Mas enfim, o texto ficou bom sim, amei o jeito que retratou as estrelas *-*
    E eu tbm penso desse jeito, sobre a imortalidade ;D Me fez lembrar de um trecho de uma música do My Chemical: "Oh how wrong we were to think that immortality meant never dying" (Oh quão errados estávamos em pensar que imortalidade significava nunca morrer) *-*
    Desculpa por fazer tantas críticas, mas não consigo mentir, vc sabe kkk s2

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