11 de mai. de 2012

Conto - Break Away Into The Light

Olá pessoal!
Depois de tanto tempo, venho aqui com um novo conto, Break Away Into The Light (título tirado da música 'Bad', do U2, que aliás, escutei o tempo todo enquanto escrevia isso. Se quiserem ouvir enquanto estiverem lendo, recomendo. Link dela no Youtube ou no mediafire).
Opiniões são sempre bem vindas, fiquem a vontade! (:


Break Away Into The Light


Seis horas. Seis horas da manhã, e o maldito despertador tocou, sendo silenciado por uma mão furiosa alguns segundos depois. Tentou dormir novamente, enfiando a cabeça debaixo do travesseiro, sem sucesso algum. Resolveu levantar-se antes que realmente se atrasasse. Como fazia todos os dias.
Com um mau humor matinal previsível, dirigiu-se ao banheiro. Depois que saiu do banheiro, alguns minutos antes de sair para trabalhar, ficou alguns segundos observando o movimento lerdo da rua pela janela do prédio.
Pensou, como fazia todas as manhãs, que aquela maldita grade de proteção era uma ideia tão ruim. Daria um trabalho imenso arrancá-la. Se ela não estivesse ali, talvez então pudesse por em prática, talvez então pudesse...
Não, pensou com uma pontada de amargura, Sou covarde demais mesmo para isso.
E resolveu sair, antes que realmente se atrasasse.
***
Isso parece barro, pensou, olhando para a comida comprado por um preço modesto alguns minutos atrás, em um restaurante simples. Pior do que barro, isto não tem gosto de nada.
Colocou a comida de lado, incapaz de ver-se digerindo aquela massa intragável, e resolveu comprar um doce, para saciar a fome até de tarde.
Não havia chocolates naquele restaurante (que surpresa, pensou com irritação), então comprou um doce barato. Foi só quando colocou-o na boca que conseguiu lembrar-se dele. Não do nome, mas do sabor. Sua infância inteira passou na sua cabeça em segundos; brincando, correndo, conversando com colegas de escola e comprando um desses doces na hora do intervalo, enquanto esperava as próximas aulas.
Como pudera se esquecer desse doce? Do quanto o amava, de que tê-lo era uma especial de ritual diário para ele e colegas?
Como é que pudera esquecer tantas coisas a respeito de si mesmo?
Acho que eu só cresci, pensou amargamente. Mas deixou a amargura para depois, e engoliu o resto do doce, que tinha sabor de toda a sua feliz infância.
No fim, o restaurante barato, apesar de ter uma comida indigerível, lhe fizera algo bom. Lhe trouxera lembranças incrivelmente queridas.
E por apenas cinquenta centavos!
***
Maldita fila, pensava enquanto estava esperando o ônibus. Devia estar ali há pelo menos meia hora, como fazia todos os dias.
Realmente, parecia nunca aprender que se saísse naquele horário, teria que esperar, independente do dia.
Engraçado como não mudamos mesmo sabendo que estamos fazendo mal a nós mesmos, pensou com um tom de tristeza. Tristeza porque essas auto-referências começavam a ficar irritantes.
Já tinha noção suficiente da pessoa deprimente que era. Não precisava lembrar-se disso todo instante.
- Desculpe, mas que horas são? – alguém lhe perguntou, pegando-lhe de surpresa.
-  Sete e quarenta e cinco – respondeu, quase gaguejando.
- Ah, agradeço! Estou sem relógio e precisava saber, acho que vou a pé para casa.
E a pessoa saiu, sem dizer outra palavra, deixando-lhe com um ar ainda mais confuso e perdido.
Qual foi a última vez que conversara de verdade com alguém? Qual fora a última vez que sorrira verdadeiramente e que contara para alguém o que se passava em seu interior?
Não conseguia se lembrar.
Só podia recordar-se das conversas simples, superficiais, que mesmo assim, eram um apelo. Era como se gritasse ‘Eu preciso de ajuda! Alguém pode, por favor, me ajudar nisso? Me perdi e nem sei se isso importa mais!’ cada vez que dizia as horas, informava o nome da rua ou comentava sobre o tempo.
Quando foi que se transformara assim, que havia se perdido tanto?
Malditos pensamentos.
Após o que pareceu ser uma eternidade, o ônibus finalmente chegou. Entrou e, por algum milagre não-divino, conseguiu um banco vazio para sentar-se, e da janela, pôs se a observar todo o caminho.
A noite estava cheia de nuvens, mas havia uma ou outra estrela insistindo em aparecer, e a lua, tão cheia, tão bonita, aparecia majestosamente, desafiando as nuvens que teimavam em tentar esconder seu brilho magnânimo.
Por quem vocês brilham? Por que continuam a existir e transmitir tanta beleza para tantas vidas vazias como a minha?
Levou uma das mãos a cabeça, apoiando-a de leve.
Não é justo tanto vazio para uma pessoa só, repetia quase como uma prece em sua cabeça, não é justo.
Mas quem disse que a vida é justa, afinal?
***
Em casa. Infelizmente, finalmente.
Após comer o que sobrara do jantar de ontem, sentou-se no meio de seu apartamento vazio, não ligando para o chão frio ou a sensação de dormência que provavelmente lhe atingiria.
Durante alguns longos minutos, observou o teto, sem fazer ou pensar em absolutamente nada. Então, muito lentamente, levantou-se e apagou as luzes, voltando a sentar-se no chão.
Ficou ali, talvez, por horas; sentia a dormência nas pernas e pés, o frio nos braços, as lágrimas salgadas escorrendo pelo rosto, mas nada disso fazia com que quisesse se mexer. Poderia ficar ali para sempre e não se importaria.
Não se importava com nada, realmente.
Sentiu nessa hora, inveja não só das pessoas que queriam viver, mas daquelas que queriam morrer. Estava no limiar; não queria mais viver, mas tinha medo de morrer.
Então não tinha nenhum objetivo; era só uma casca vazia, seca e fria.
Após o que pareceu muito tempo, levantou-se e ligou as luzes, dirigindo-se ao quarto para dormir.
Ao passar pela porta, viu que a flor que colocara em uma mesa do canto há pelo menos um mês ainda estava ali; morta, obviamente.
Observou a flor por alguns instantes; as pétalas murchas, secas e enegrecidas, encolhida e recurvada. Mas ainda havia resquícios das folhas verdes que um dia tivera.
Pensou que, se fosse comparar-se com a flor morta, concluiria que ela tinha mais vida, mesmo que estivesse dentro daquelas pétalas murchas e distorcidas.
Afinal, um dia ela fora linda, com um aroma encantador, uma preciosidade.
Mas quando pensava em si, não podia dizer o mesmo.
***
Seis horas. Seis horas da manhã, e o maldito despertador tocou, sendo silenciado por uma mão furiosa alguns segundos depois. Tentou dormir novamente, enfiando a cabeça debaixo do travesseiro, sem sucesso algum. Resolveu levantar-se antes que realmente se atrasasse. Como fazia todos os dias.
Fim
P.S: se você gostou do conto e quiser postá-lo em algum lugar, fico lisonjeada. MAS antes disso, fale comigo e quando eu liberar, poste os créditos, ou teremos problemas.

20 de abr. de 2012

Discografia: Mika

Olá pessoal!

A pedido de uma grande amiga, venho aqui postar a discografia do cantor Mika. São apenas dois álbuns, mas incluí também um EP e uma compilação com Outtakes de estúdio.

Aproveitem!
Biografia


Michael Holbrook Penniman, mais conhecido como Mika, nasceu em Beirute, Líbano no dia 18 de Agosto de 1983. É um cantor, e compositor multi-instrumentista que ganhou notoriedade no mundo da música em 2006. Seu 1º álbum Life in Cartoon Motion, que contém os singles de grande sucesso Grace Kelly e Love Today, alcançou 5x Platina no Reino Unido, e 3x Platina nos EUA. Iniciou sua carreira apresentando várias demos para diversas gravadoras, até se firmar na Island Records, em parceria com a Universal Music. 



Filho de mãe libanesa e pai norte-americano. Quando tinha um ano, sua família viu-se obrigada a deixar o Líbano devido à situação de conflito no país, partindo para Paris.


Viveu na França até os 9 anos, quando seu pai esteve retido, por questões diplomáticas, no Kwait, no início da Guerra do Golfo. Depois mudou-se para Londres, Reino Unido, onde vive atualmente. 

Seu contato com a música começou cedo. Aos onze anos já gravava publicidade e participou, a cargo da sua professora de música, de uma ópera chamada Die Frau ohne Schatten, de Strauss. Devido à grande variedade de influências musicais que recebeu em toda a sua vida, Mika tem hoje um reportório que se pode definir como uma mistura de todas essas influências. Desde Prince e Metallica à música clássica que conhecera na ópera, passando pelos traços islâmicos trazidos do Médio oriente. No entanto, o que mais encanta das características de Mika é a sua voz, muito comparada a de Freddie Mercury. Excêntrico em palco e com um ritmo dançante, leva o público ao delírio quando aplica tons mais altos e agudos na sua voz.

(continue lendo aqui)


Discografia

Life In Cartoon Motion (2007)












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The Boy Who Knew Too Much (2009)











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E, como eu havia dito, a compilação (não achei uma capa oficial para ele, mas, de qualquer forma):

Studio Outtakes (2004)












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E o EP:

Songs For Sorrow (2009)











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6 de abr. de 2012

Conto - Street Eyes

Olá pessoal!
Temos um novo conto essa semana, Street Eyes. Título retirado da música do Iggy Pop, Main Street Eyes (podem ouvir a música no 4shared ou no Youtube).
Não esqueçam de dizer o que acham (:


Street Eyes



Robert observava as cortinas de tom azul-escuro como se estivesse observando a uma obra em um museu. Cada detalhe, cada pequena dobra o fascinava; era tão lisa, tão bonita em seu veludo molhado, que por alguns instantes, se esquecera do mundo real.
Mas não era exatamente incomum para Robert se esquecer do mundo real. Ele simplesmente, mergulhava em seu universo e lá ficava, até que algo o arrancasse bruscamente de lá. Nesse caso, fora a voz de Martin, seu irmão, dizendo aborrecido:
- Você não ouviu nada do que eu disse, não é Robert?
Robert somente deu um sorriso encabulado, o que fez Martin bufar e dizer:
- Eu estava falando sobre a exposição que terá hoje. Vovó quer todos nós lá para celebrar o aniversário dela, e você sabe como ela é...
Martin parou de falar quando notou os olhos opacos de Robert, em um ponto fixo atrás de si; virou-se e notou uma borboleta amarela sobrevoando-lhe.
- Assim não é possível – Martin bufou e saiu do aposento.
Robert sentou-se no chão, ao notar-se sozinho. Ele sabia o que Martin estava falando, cada linha. Só não se preocupava muito com nada daquilo; não era exatamente algo que o atraísse. Robert era quieto, calmo e tímido: não gostava de aglomerações ou muitas pessoas.
Gostava de andar pela rua em silêncio e ver as pessoas anonimamente. Robert era do tipo de pessoa que não era notado, e gostava do anonimato. Gostava de observar as pessoas. Vê-las felizes, vê-las tristes, vê-las prestes a explodir, sem que quem estivesse perto delas sequer notasse isso. Fornecia-lhe liberdade.
Martin  já era o oposto. Enquanto voltava para dentro de seu quarto, pensava em como Robert podia ser tão desastrado, dispersivo e desinteressado de tudo. Martin adorava as convenções que iam com frequência, as conversas com diversas pessoas. Era seu universo.
Gostava de andar na rua também, mas ao contrário de Robert, era para se exibir, para atrair olhares. Martin agradava as pessoas, sabia disso, e gostava disso.
Ele e seu irmão eram polaridades opostas, que não entendiam como foram gerados pelos mesmos pais.
Robert esticou os dedos para tocar em uma pequena pedra de mármore que estava por ali, sentindo a textura fria e deliciosa. Estava um tanto desanimado naquele dia, e estava se refugiando mais dentro de si do que era normal. Não sabia ao certo o por que; essas coisas eram repentinas demais, e quando se dava conta, ele já estava mergulhado naquelas sensações.
Martin fora escolher a roupa que iria para a festa. Estava feliz, e não iria deixar Robert estragar isso. Não dessa vez. Com os olhos opacos e tristes, fascinado em sabe que lá qual universo paralelo, não iria deixar com que Martin se sentisse mal dessa vez. Ele não tinha culpa de ter um irmão assim, afinal.
Robert levantou-se, por fim. Teria de ir a maldita festa, ou Martin lhe falaria sobre aquilo até o fim dos tempos. Fora até seu quarto e achou que a roupa que vestia era boa o suficiente, e só ajeitou seus cabelos com um pouco de água, sem ligar para as olheiras que adquirira quando observara as estrelas até de madrugada, na última noite.
Martin finalmente decidira-se por algo, saíra do quarto pronto, quando se deparou com Robert no corredor.
Encararam-se por uns segundos que pareceram durar anos; Robert viu toda a alegria contagiante de Martin, toda a fome de viver e senso de realidade que ele tinha, vendo que Martin gostava disso, que ele era feliz.
Martin, por sua vez, vira o vazio no rosto do irmão, um vazio paradoxalmente cheio; Robert parecia pertencer a diversos mundos, diversas realidades, onde as coisas mais insignificantes faziam sentido e onde as coisas que Martin mais prezava não tinham importância alguma, e Robert sentia-se bem com isso.
Após esses segundos de observação, Robert disse em voz rouca:
- Gostaria que você pudesse trocar de lugar comigo por um dia.
- Eu também. – Martin respondeu.
Encararam-se novamente, um sorriso cúmplice se formando no lábio de ambos.
Mesmo polaridades opostas podem se atrair às vezes.
Fim

8 de mar. de 2012

Conto - Only Women Bleed

Olá pessoal!
Venho com mais um conto estranho, Only Women Bleed (título tirado da música do Alice Cooper - original aqui, e um trechinho com o Guns N' Roses aqui). Minha inspiração para escrever não foi essa música, mas acho que ela se encaixou bem :-)
Então já sabem... leiam e comentem, aproveitem :-)


Only Women Bleed

Cinthia tinha cabelos pretos.

Roberta tinha olhos azuis.

Martha gostava de andar com bolsas a tiracolo.

Luiza gostava de andar pela rua com os fones de ouvido.

Os pais de Cinthia se separaram quando ela tinha apenas 9 anos.

Os pais de Roberta ainda estavam juntos, em um casamento fracassado mas mantido para o bem das aparências.

Martha era casada e gostaria de ter um casal de filhos, mas não agora.

Luiza morava com o namorado há seis meses, e não queria saber de filhos.

Cinthia era católica fervorosa há anos, e não passava uma semana sem ir para a Igreja.

Roberta era ateísta desde os quinze anos.

Martha acreditava em Deus, mas não em religiões e muito menos em dogmas severos, seja qual instituição religiosa que os prega.

Luiza era umbandista, levava sua religião a sério, mas não era muito ligada à frequência e regras da mesma.

Cinthia gostava de gatos. Associava-os com uma infância feliz e gostosa nos subúrbios, ainda que um tanto solitária.

Roberta gostava de cães, Lembravam-na do namorado de sua adolescência, que tanto amara.

Martha não gostava de beber, mas gostava de cigarros. Sua adolescência difícil encontrara consolo neles, e não pararia tão cedo, mesmo que isso lhe custasse a saúde.

Luiza abominava cigarros, mas adorava álcool. Uma das poucas coisas no mundo capaz de driblar sua timidez, por isso usava e abusava dele. 

Cinthia amava motos. Amava a sensação de liberdade que elas lhe davam, amava o vento no rosto, e até a chuva gelada. Amava até o cheiro da gasolina que ela soltava.

Roberta odiava o cheiro de gasolina porque lhe dava enjoo. Desde criança, e por essa razão, não gostava de andar de carro. Não que os ônibus fossem muito melhores, mas o cheiro era menor.

Martha tentara se suicidar três vezes na adolescência. Comprimidos por duas vezes, e em uma tentou cortar os pulsos. Não estava totalmente recuperada da depressão, mas conseguia encontrar mais motivos para viver agora.

Luiza teve uma adolescência relativamente boa, mas frustrada. Na idade dos vinte anos, entrou em depressão profunda, mas nunca tentou se matar; gostava muito dos pais para fazê-lo. Três anos se passaram, e ela ainda não estava completamente boa.

Cinthia gostava de olhares apaixonados.

Roberta gostava de sorrisos sinceros.

Martha apreciava os pequenos momentos de silêncio durante o dia, onde poderia escutar o som da própria respiração sem interrupções.

Luiza gostava de barulho, pois era muito mais fácil misturar-se à multidão e fingir que era invisível.

Cinthia sabia tocar piano. Um dos maiores prazeres da sua vida era tocar como uma fúria desesperadora o terceiro movimento da Appassionata de Beethoven e ver os olhares de admiração a sua volta.

Roberta gostava de guitarras. Demorou muito para aprender a tocar uma, mas assim que dominou a técnica, exibia sua Les Paul com todo o orgulho do mundo.

Martha amava filmes. Era como se fossem a única coisa em sua vida que fazia sentido: Bette Davis estapeando Joan Crawford em "O Que Terá Acontecido a Baby Jane?", o sorriso ingenuamente malicioso de Malcolm McDowell em "Laranja Mecânica", ou o brado da multidão após o discurso de Chaplin em "O Grande Ditador": eles, todos eles teriam lhe entendido.

Luiza era uma devoradora de livros. Consumia-os em um espaço de tempo muito curto, e com um deleite imenso; tal como Dorian Gray, era como se os personagens de todas aquelas tramas fantasiosas repetissem seus pecados e tentações. Talvez por isso ela amasse cada página.

Cinthia, Roberta, Martha, Luiza. Todas moravam na mesma cidade. Todas pegaram o ônibus naquela mesma manhã. Não se conheciam.

Cinthia pensou desapontada consigo mesma que deveria ter trazido o batom. Após comer, ele com certeza iria sair quase que totalmente. Mas resolveu deixar de lado.

Roberta pensava que não devia ter exagerado tanto no delineador. Provavelmente estava ridículo.

Martha pensava na torta de limão que esquecera em cima da mesa. Provavelmente as formigas iriam encontrá-la, era seu pensamento pesaroso.

Luiza pensou que era uma péssima hora pra bateria de seu celular acabar. Que hora pra ficar sem música!

Cinthia, Roberta, Martha, Luiza. Foram jogadas para o mesmo canto, com a mesma violência e ao mesmo tempo, quando o ônibus colidiu violentamente com outro ônibus. 

Uma por cima da outra, e o sangue que se começava a sair dos cortes de cada uma delas misturava-se: sangue de Martha e sangue de Roberta, sangue de Luiza e sangue de Cinthia, como se fossem a mesma pessoa.
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Quando o socorro chegou e viu as quatro mulheres no canto, um dos rapazes gritando "Acho que essas quatro ainda estão vivas!", elas estavam tão assustadoramente parecidas, que jamais poderia-se adivinhar as diferenças de suas vidas ao vê-las tão próximas. Afinal, não é na morte e nas adversidades que vemos, tarde demais, que somos todos iguais por sermos diferentes?

Cinthia, Roberta, Martha, Luiza. Quatro almas, quatro vidas, todas iguais por serem diferentes.

Fim

P.S: se você gostou do conto e quiser postá-lo em algum lugar, fico lisonjeada. MAS antes disso, fale comigo e quando eu liberar, poste os créditos, ou teremos problemas.

29 de fev. de 2012

Poema - Pack Of Lies

Olá pessoas!

Estou postando aqui um antigo poema meu, 'Pack of Lies'. O título veio de um trecho de uma música do Placebo, Without You I'm Nothing (link no 4shared e no Youtube, caso queiram ouvir enquanto estiverem lendo). 

Ahhh, um lembrete: caso tenham um tumblr, eu postei esse conto lá também, nesse post aqui, reblogs são bem vindos. ^_^

Não me acho muito boa com poemas, mas mesmo assim... enjoy! (:

Pack of Lies

Eu fecho os olhos, e vejo tudo negro;

vejo a escuridão,

vejo a desesperança e o vazio.

Então, eu abro meus olhos.



Eu fecho os olhos, e vejo você;

vejo todo o amor que sinto por você,

e vejo a ruína que isso pode me trazer,

vejo o medo de amar alguém tanto assim;

Então, eu abro meus olhos.



Eu fecho os olhos, e não vejo nada;

vejo e não vejo minha vida passando como um mapa,

me guiando e não guiando em direção a existência

da carência de alguma coisa a mim segregada.

Então, eu abro meus olhos.



Eu fecho os olhos, e vejo o negro, vejo o nada, vejo você.

Ainda há a desesperança, ainda há a escuridão,

ainda há o nada, ainda há o medo;

mas ainda há você, e ainda há o que sinto por você.

Então, mantenho meus olhos fechados.

Fim


P.S.: se você gostou do poema e quiser postá-lo em algum lugar, fico lisonjeada. MAS antes disso, fale comigo e quando eu liberar, poste os créditos, ou teremos problemas.

7 de fev. de 2012

Conto - Losing My Religion


Olá a todos!
Venho hoje com um novo conto, intitulado "Losing My Religion". Sim, o nome vem da música do R.E.M. Recomendo ouvir quando ler; podem baixar/ouvir pelo 4shared ou pelo Youtube.
Quero comentários assim que lerem... boa leitura!

Losing My Religion

Edgar sempre fora, desde criança, uma alma voltada para Deus.

Uma de suas primeiras recordações era de, por volta de seus cinco anos, sua mãe levando-o à uma igreja. Lembrava-se de ter ficado fascinado pelas cores e formas da catedral em estilo gótico, pelos rostos sérios e pelas imagens dos santos. E o que mais lhe chamara a atenção era o rosto do Cristo em um imenso crucifixo de madeira, em cima do altar. Assustara-lhe, e ao mesmo tempo, lhe fascinara.

Em sua afobação infantil, não comentara com sua mãe o quão fascinante o lugar havia sido; mas por semanas a fio, não esquecera-se dos rostos inatingíveis e austeros dos santos.

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Edgar gostava do cheiro de flores e de velas. Especialmente de velas.

Sua mãe não era uma católica assídua: ensinou-lhe a ler a bíblia e acreditar em Deus, lhe ensinara a ir na Igreja, mas ela própria não possuía o hábito. Edgar não se importava; todas as semanas ele estava na Igreja, uma criança curiosa e quieta, com olhos atentos a tudo que o padre dizia.

O velho padre, chefe da paróquia, gostava muito de Edgar. Adorava os modos curiosos e fascinados do pequeno garoto, que prometia que seria padre quando crescesse. O velho sacerdote sempre afirmava que, para seguir uma vida cristã, não era necessário ser padre, mas viver de acordo com os princípios religiosos.

Edgar balançava a cabeça, concordando de um modo apressado, mas não mudava de ideia.

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Edgar agora estava com doze anos. Era coroinha da Igreja, sério demais para sua idade, com poucos amigos, pois todos o achavam "esquisito demais".

Edgar não ligava.

Ele achava incrível a maneira como a religião poderia salvar vidas. Emocionara-se diversas vezes com depoimentos de pessoas dizendo o quão a fé em Deus lhes salvara de uma vida vazia e sem significado, o quão bem lhes fazia.

Agarrava-se à aquilo como um filhote faminto agarra-se ao leite da mãe para sobreviver.

Não suportava sequer pensar em uma existência sem esses elementos; sua vida já estava ligada com o sacerdócio.

Ele queria ser como os padres que iluminavam a vida daquelas pobres pessoas em desespero, lhe dando orientação e algo pelo qual lutar; ele queria poder salvar tantas almas quanto pudesse. Não conseguia pensar em uma vida melhor do que essa.

Seu coração de doze anos de idade aqueceu-se com esse pensamento.

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Aos vinte e cinco anos, Edgar estava cheio de esperanças. 

Ainda faltava muito para ser padre, mas sentia que finalmente estava no caminho certo.

Nada era fácil, muitas vezes ele não possuía dinheiro nem para alimentar-se direito e um desânimo crescente brotava em seu peito.

Toda vez que lembrava-se disso, porém, o rosto do velho padre surgia em sua mente.

E logo ele voltava a sorrir.

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Edgar agora estava com trinta. 

Após tanto e tantos anos, finalmente acontecera; era um padre.

Após dificuldades familiares, financeiras, sociais, e de muitos outros tipos, conseguira conquistar aquilo pelo qual seu ser, no íntimo, sempre desejara.

Era ainda jovem, tão inexperiente, e ansioso pra mudar o mundo a seu modo.

Edgar estava feliz.

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Edgar ainda gostava do cheiro de velas. Trinta e cinco anos ele agora tinha, e uma pequena experiência.

Aprendera muito, observara demais nesse meio tempo. Vira coisas que o revoltaram, que o  magoaram e que fizeram com que duvidasse do poder que essa instituição que tanto idolatrava possuía em salvar a vida das pessoas.

Mas Edgar não pensava em desistir; ele não estava mais com oito anos e sabia que corrupção existia em todos os cantos possíveis da terra. O que fazia diferença eram as pessoas boas, lutando pelos ideias corretos.

E ele estava determinado a ser uma dessas pessoas.

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Edgar estava com quarenta e cinco anos. A velhice começava a demonstrar seus sinais em seu rosto cansado.

Ele continuava acreditando fervorosamente em Deus. Mas, tantas coisas ele vira, tantas coisas fizeram ele se decepcionar, que ele pensava estar cada vez menos convicto de seus ideiais.

Já era padre há quinze anos, e duvidava seriamente se conseguira salvar alguma alma em todo esse tempo.

O cheiro das velas já não importava muito para ele.

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Os rostos severos das imagens dos santos que Edgar vira na capela gótica onde sua mãe o levara quando estava com cinco anos continuavam os mesmos, mas, no auge de seus cinquenta anos, Edgar não poderia achá-los mais diferentes.

Continuava sua vida de sacerdócio da mesma exata maneira que fazia há vinte anos. Com os mesmo sorrisos doces, com a mesma animação.

Mas já não era o mesmo.

As poucas pessoas que achava que havia conseguido salvar não significavam muito. Especialmente quando proclamavam o nome de Deus e discriminavam tudo e todos ao seu redor, com uma atitude de ódio que Edgar não saberia classificar senão como revoltante.

Afinal, que Deus gostaria que você odiasse seus irmãos porque eles são diferentes, se assim ele os criou?

Edgar, em seu íntimo, ainda gostava do cheiro das flores e das velas, e ainda acreditava na existência de um Deus. Acreditava em sua existência, mas não confiava nele.

Não confiava, pois não podia acreditar em um Deus que deixara morrer toda a fé que existira um dia em um garoto de doze anos. 

E Edgar previa que ela não fosse retornar.

Fim

P.S: se você gostou do conto e quiser postá-lo em algum lugar, fico lisonjeada. MAS antes disso, fale comigo e quando eu liberar, poste os créditos, ou teremos problemas.